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A exposição Traição da Imagens, 09 a 26 setembro 2026, reúne um conjunto de obras recentes que traz maior amplitude ao caráter processual das constantes pesquisas e investigações do artista. Cria fabulações ou narrativas históricas ao transformar as suas experiências artísticas em um território fértil para suas investigações políticas e pulsões existenciais.  

 

Nas diferentes séries, lança mão de sua polivalência ao misturar fronteiras por meio de múltiplas combinatórias. Desenvolve um trabalho visual com um repertório imagético lúdico, irônico, alicerçado por linguagens aparentemente opostas.  Estudou a flora brasileira na Fundação Margaret Mee, no Royal Botanic Gardens, Kew, em Londres, e ali adquiriu um repertório erudito por meio do estudo científico da ilustração botânica. 

 

 Sua trajetória artística é marcada por experimentações que revelam uma constelação política e uma articulação entre arte, ciência, biomas e sistemas político-sociais. Estamos diante de um território livre, mas de tensa convivência, ao colocar em cena alguns símbolos capazes de convocar a ideia de identidade e de pertencimento, pontos nucleares em sua prática artística.  

 

São situações e cenários com sobreposições lúdicas, nos quais os elementos botânicos são protagonistas significativos e estão muito presentes, ao transformar a natureza em matéria e manifesto. O artista procura evidenciar as fissuras e as contradições do mundo ao nosso redor, ao utilizar uma gramática visual híbrida, presente tanto no universo pop e no científico. Subverte a ilustração botânica para suscitar questões pertinentes ao nosso processo de colonização cultural, ao domínio do capitalismo americano, ao meio ambiente e à complexidade de suas crises climáticas. 

 

A natureza e sua grandiosidade como representação são entendidas pelo artista como uma interrogação, a serviço de propósitos diferenciados, e não como um modelo de idealização. Ganha contornos de uma iconografia política, na qual, por vezes prevalece o predomínio de silhuetas e sombras, que se sobrepõem ao encantamento. O artista recorre a algumas imagens para lastrear o desenvolvimento de sua reflexão, visando que novos sentidos se revelem. Uma das tônicas de seu trabalho é a construção de imagens desenvolvidas a partir de figuras icônicas de Walt Disney, nas quais utiliza, dentro do universo pop, a crítica, o humor e a ironia através de personagens infantis que fizeram parte da hegemonia americana e da colonização da nossa cultura.  

  

Esse encontro de mundos está presente na dominação da produção estrangeira e nos traços distintivos do Zé Carioca ou do Pato Donald, já inseridos numa natureza tropical. Essa narrativa busca marcas definidoras de uma nacionalidade a partir de personagens que seriam invasivos e que, segundo a sua afirmativa a respeito do imperialismo americano, estariam colonizando a nossa cultura. Zé Carioca, personagem desenvolvido pelos estúdios Disney na década de 1940, amigo do Pato Donald, era o retrato do malandro carioca e foi criado durante o período da Política de Boa Vizinhança, adotada pelo presidente Franklin Roosevelt, como uma estratégia para aproximar o apoio político do governo do Estados Unidos aos países latino-americanos.  

 

O artista vai utilizar essas imagens disneyficadas através de experimentações estéticas questionadoras, ancorando a dissolução dessas representações visuais pelo acréscimo, à la Giuseppe Arcimboldo, que tensiona a ideia de identidade fixa por meio de um emaranhado de folhas, penas ou frutas tropicais. Trata-se de uma importante iconografia política que produz um estranhamento e um descolamento entre a imagem e o mundo real. Sergio Allevato, por meio de sua consciência crítica, imprime contornos filosóficos e sensíveis como uma advertência, para discutir a dominação imperialista, o processo de colonização, a ânsia de dominação da natureza, mantendo um foco contínuo de elocubrações dentro de uma órbita contemporânea. 

 

Na série Colapso, o fio narrativo desloca-se para outras leituras críticas, ainda marcadas pelos ecos das incessantes crises mundiais. Estão presentes, nessa cartografia povoada por vestígios, uma maior fluidez nas pinceladas e no uso das cores. Não encontramos ali uma unidade perceptiva, mas contornos imprecisos e ritmos imprevistos. São construções visuais que trazem a ideia de um mundo desarticulado, provocante, perturbador e com grande poder de corrosão. As figuras parecem emergir e desaparecer, como organismos em permanente mutação. As imagens fluem livremente, recusando qualquer organização racional ou narrativa linear.  

 

Em sua iconografia encontramos uma paleta de símbolos que nos convida a contemplar as ressonâncias de uma historiografia da arte, como os halos dourados devocionais da arte bizantina ou imagens que trazem o poder do gesto criador de Michelangelo Buonarotti bem como as intervenções direcionadas aos adornos e elementos de ornamentação presentes nas obras de Gustav Klimt. 

 

O universo pictórico é habitado por elementos fragmentados, carregados de memória, vestígios e camadas do passado. Signos e símbolos repletos de incertezas, instalam-se em uma ambígua geografia entre o espaço físico e o campo do imaginário. Arestas que colocam em xeque, qualquer possibilidade de serenidade. O artista cria uma nova identidade territorial e evoca novos verbetes contundentes, que funcionam como alertas para propagar a problemática da nossa realidade. Um verdadeiro manifesto.

 

Vanda Klabin
Curadora

Sergio Allevato

Rio de Janeiro, Brasil

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