Série braZil
braZil, de Sergio Allevato, é uma série profícua, com obras de arte em diversos suportes, linguagens e técnicas que, em comum, são também arapucas. São pinturas a óleo sobre linho, livros de artista, videoartes, instalações e esculturas em vidro, madeira e plástico UBS. Nos trabalhos do conjunto, quando vemos uma fruta, ela já é uma planta? Logo, já não é nenhuma das duas. Nesse universo fantástico, um animal pode ser vegetação e um abacaxi feito de penas.
Assim, ele retoma um antigo diálogo com a natureza, propondo novas categorias e hierarquias. Afinal, a qual reino pertencem os seres de Allevato? As leis que regem esse mundo novo só podem ser descobertas se nos tornarmos também parte dele – mas, tornando-nos, uma nova armadilha parece surgir: sofreremos também uma mutação?
Ao trabalhar com a fauna e a flora nacionais, talvez a pergunta principal que o multiartista nos faz seja: o que há no Brasil, além do braZil? Desde os relatos de Pero Vaz de Caminha e Hans Staden até as imagens de Carmen Miranda e Walt Disney – todos marcados pela exuberância tropical do novo mundo – do que é feito esse país para além do que foi exportado? Allevato joga com esse repertório construído historicamente e sedimentadas pela indústria do entretenimento. Sua ironia equilibra, então, dois elementos paradoxais: de um lado, o terreno estranho, fresco e renovado, construído em sua obra; de outro, a sensação de familiaridade que ele desperta à primeira vista.
Em cada uma de suas variadas obras, salta a sensualidade da cor que encanta os olhos, mas, em camadas mais profundas, o rigor irônico constrói a força das composições, conciliando sentimentos complexos, como passividade e hostilidade, liberdade e aprisionamento. Sua visualidade é extravagante, lúdica e ácida, enquanto questões como a identidade e o pertencimento são mobilizadas. Sem facilitar respostas. Pelo contrário. Ele questiona e reelabora narrativas históricas e o imaginário criados em torno do Brasil, interessado no que o país já foi e é, mas também em tudo que ainda pode ser.
Christiane Laclau
Curadora